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 Títulos públicos - Ganho turbinado, futuro incerto
 
 20/3/2009 0:56:31
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Títulos públicos - Ganho turbinado, futuro incerto
Ganho turbinado, futuro incerto

Por Adriana Cotias, de São Paulo
Com a aceleração da queda da Selic, os títulos públicos prefixados e os atrelados à inflação sem pagamento de juros semestrais já se tornaram os campeões de rentabilidade no ano. Em menos de três meses, há entre as Notas do Tesouro Nacional série F (NTN-F, prefixadas) papéis que obtiveram retornos superiores a 6% (vencimento em 2017) até dia 17, mais da metade da atual taxa básica da economia, de 11,25% ao ano, enquanto as Notas do Tesouro Nacional série B Principal (NTN-B, indexadas ao IPCA) com resgate em 2015 proporcionaram ganhos de 9,19%, não só pelo efeito da redução da taxa primária da economia como também pela queda das projeções implícitas para o índice de preços.

Quem tem dinheiro em caixa ou está prestes a balancear a carteira não pode se fiar, porém, no desempenho recente para formular suas estratégias de renda fixa. Mais do que o tamanho que o juro brasileiro terá no fim de 2009, o que mais interessa ao investidor agora é saber qual o passo do afrouxamento monetário.

Quanto mais rápido for o ritmo de corte, maior o risco para as posições longas, que podem devolver parte desses ganhos com a mesma velocidade a qualquer sinal de repique inflacionário e da consequente elevação da Selic. Apesar disso, para preservar o poder de compra, os analistas ainda recomendam papéis indexados ao IPCA ou Letras do Tesouro Nacional (LTN) mais curtas, com prazo de um ano.

De janeiro para cá, em apenas duas reuniões, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu o juro básico em 2,50 pontos percentuais. Só no último ajuste, na semana passada, o colegiado do Banco Central (BC) decidiu por uma baixa de 1,50 ponto percentual. O enfraquecimento da atividade, com riscos de uma grave desaceleração da economia, deve estar na exposição de motivos da ata que será divulgada hoje, num momento de menor pressão sobre os preços. As projeções do mercado também se ajustaram, de estimativas de uma Selic em 12% ao ano para dezembro para os 9,75% constantes na última coleta do BC, divulgada no boletim Focus de segunda-feira.

Há, entretanto, quem vá mais adiante. Paulo Mateus e Rodrigo Valdes, do Barclays Capital, por exemplo, esperam outro corte de 1,50 ponto em abril e uma redução de 1 ponto em junho, com a taxa básica em 8,75% ao ano já no fim do primeiro semestre, enquanto o time de economistas da americana Capital Markets vislumbra uma taxa de 8% em dezembro, abaixo também daquilo que está embutido nos contratos de juros negociados na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F).

"Comparativamente aos outros países, o Brasil ainda tem condições de atuar na política monetária, tem espaço para fazer ajustes mais intensos e sem afetar o câmbio", diz o economista-chefe da Gradual Investimentos, Pedro Paulo Silveira. Para ele, o freio global será mais violento do que se imaginava, o que forçará o BC a promover mais um corte de 1,5 ponto percentual e outro de 0,50 ponto percentual, com a taxa baixando a 9,25% ao ano.

Se é assim, por que não comprar agora títulos prefixados que estão garantindo taxas que esbarram nos 11% ao ano, como as Letras do Tesouro Nacional (LTN) com vencimento em 2012? O problema é que enquanto há dúvidas sobre a retomada do crédito global e ainda não se dimensionam os efeitos da escassez nas diversas economias, as estimativas para os dados macroeconômicos estão igualmente dispersas, diz o gestor de renda fixa da Global Equity, Octavio Vaz.

Não só o cenário tem se modificado rapidamente como também a própria "cabeça" do BC, o que quer dizer que a calibragem dependerá, mais do que nunca, dos números de atividade e de inflação divulgados aqui e ali, afirma. A questão é que, se o ritmo de ajuste for mais curto e intenso, a resposta da economia aos juros historicamente baixos pode ser na forma de pressão inflacionária, o que colocaria as posições prefixadas em xeque. "Não é tão trivial deixar hoje o patrimônio em pré como era em janeiro, quando os juros futuros projetavam taxas na casa dos 15%, 15,5%, é preciso ficar monitorando de perto quais serão os próximos passos da política monetária." No longo prazo, os papéis ficam sujeitos ainda à volatilidade da cena internacional.

Para Vaz, preservar ganhos superiores a 7% mais o IPCA numa NTN-B com vencimento em 2015 ou 2024 deixa o investidor numa situação confortável para atravessar esses tempos de turbulência internacional com rescaldos visíveis na economia brasileira. Mas sempre vale deixar uma boa parcela em pós-fixados, nas Letras Financeiras do Tesouro (LFT).

À medida que o juro nominal se aproxime da barreira dos 10% ao ano, o melhor é estar preparado para dar a meia volta porque o Brasil ainda não conta com uma situação macroeconômica de equilíbrio que permita que os preços não saiam do controle, diz o consultor de investimentos Paulo Bittencourt. "Fica tudo muito sensível e os efeitos de uma reversão de expectativas podem ser devastadores nos títulos longos, devolvendo rapidamente os últimos ganhos." Se a Selic abrir 2010 a 9,75% como projeta o mercado, raciocina, o Copom só continuaria a reduzir o juro a conta-gotas e, tão logo parasse, haveria uma desvalorização dos prefixados e da parcela pré dos títulos de inflação.

Isso ocorre porque, quanto maior for o retorno dos papéis, menor será o preço unitário. A situação nos últimos meses foi inversa: houve uma redução do chamado prêmio, com aumento dos preços. Quem comprou os títulos antes se beneficiou desse movimento. Valeria então se desfazer desses ativos para realizar os ganhos? Depende de quando o investidor adquiriu esses papéis, pondera Bittencourt.

É preciso pesar os custos com taxas de custódia e corretagem, bem como o peso da tributação, que é regressiva, começando em 22,5% para aplicações inferiores a seis meses até 15% ao ano para prazos acima de dois anos. "Para ganhar dinheiro em cima de dinheiro sempre é recomendável fazer a checagem mensal da carteira e talvez vender aquilo que foi bem, mas se a intenção é preservar o poder de compra, está aí o mérito de um título indexado à inflação."

Para os pequenos investidores que mal-e-mal têm acesso a taxas de administração competitivas em fundos de investimentos de varejo, garantir agora juros reais na casa dos 7% está longe de ser um mau negócio se a Selic for a 9% ao ano, diz o consultor de investimentos da Coinvalores Antenor Ramos Leão. Com as mudanças em estudo da remuneração da caderneta de poupança, com a possível aplicação de um redutor para TR, os papéis públicos ficam ainda mais interessantes, incluindo as conservadoras LFT, atreladas aos sobe-e-desces da Selic. Na sua visão, comprar LTN agora só vale se for para o prazo de até um ano, ressalvando que daí o aplicador se confronta com o inconveniente do imposto na faixa dos 20% ao ano.

Com a redução dos juros, o investidor também terá de ficar um pouco mais atento às taxas de corretagem cobradas pelas corretoras, assim como às taxas de administração que paga em fundos de investimentos, pois o peso sobre os rendimentos fica mais evidente, alerta o operador de Renda fixa da Ativa, Fernando Marques. "A cada queda na Selic, tão mais importante será selecionar as aplicações." Para ele, são os títulos mais longos que contemplam as taxas mais convidativas, apesar de o risco ter aumentado. "Tinha uma gordura grande que hoje não existe mais."

Para o médio prazo, Marques sugere as LTN com resgate em 2011 e 2012, que ontem pagavam 10,41% e 10,92%, respectivamente, e que já se beneficiam da alíquota mais baixa de imposto de renda, de 15% sobre os ganhos. Para um horizonte acima de três anos, ele considera a NTN-B com vencimento em 2015, com retorno de 7,10% mais a correção do IPCA, como uma alternativa atraente.

Valor Econômico - 19/03/2009
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